Segunda-feira, 17 de Setembro de 2012

As mentalidade e a crise - regresso às aulas

Hoje ouvi que, até a JSD pensa que assim não pode ser, que se tem que cortar mais na despesa. Eu concordo.  E sei que, apesar de os grandes culpados terem sido os sucessivos Governos e Ministérios que, além de corruptos, sempre gastaram mais do que o que tinham (ou que tínhamos, já que o dinheiro é suor de todos), todos nós temos pequenas culpas.

 

Faço o mea culpa porque, apesar de não ter gasto mais do que aquilo que tenho, também não amealhei tanto quanto devia. Podia ter poupado três vezes mais, se não comprasse tanta "porcaria" que, na realidade, não me faz falta. Mas isso é agora, que estou relativamente "folgada", porque quando estive desempregada, ou quando tive para pagar, sozinha, o crédito de uma casa que era mais de metade (loucura, eu sei) do meu ordenado líquido, tinha as minhas continhas todas muito bem feitas e aguentava-me à bomboca. Ou quando estive desempregada. Não havia pão para malucos. Sei quando posso, ou não gastar. Mas devia poupar mais, verdade.

 

Em miúdos, quase toda a roupa que o meu irmão e eu tivemos foi-nos emprestada. Nem pensávamos se era nova, ou não: vestiamo-la. Só os sapatos eram novos, para não deformar os pés, mas apenas os suficientes. Quando eram repetidos, os livros, sempre estimados, passavam de uns para outros. Tínhamos a vantagem de mãe e tias serem professoras e de, por vezes, terem oferta do livro da respectiva disciplina. Comprava-se mochila quando a outra se estragava. Forravam-se os livros.

 

Tudo isto para introduzir o texto, que vi aqui, e que mostra, não uma diferença, mas um abismo cultural, não só entre os Holandeses, mas entre tantos outros países, bem mais ricos que nós:

"Em primeiro lugar, os livros são gratuitos. São entregues a cada aluno no início do ano lectivo, com um autocolante que atesta o estado do livro. Pode ser novo ou já ter sido anteriormente usado por outros alunos. No final do ano, os livros são devolvidos à escola e de novo avaliados quanto ao seu estado. Se por qualquer razão foram entregues em bom estado e devolvidos já muito mal tratados, o aluno poderá ter de pagá-los, no todo ou em parte.
Todos os anos, os cadernos que não foram terminados voltam a ser usados até ao fim. O contrário é, inclusivamente, muito mal visto. Os alunos são estimulados a reusar os materiais. Nas disciplinas tecnológicas e de artes, são fornecidos livros para desenho, de capa dura, que deverão ser usados ao longo de todo o ciclo (cinco anos).
Obviamente que as lojas estão, a partir de Julho/Agosto, inundadas de artigos apelativos mas nas escolas a política é a de poupar e aproveitar ao máximo. Se por qualquer razão é necessário algum material mais caro (calculadora, compasso, por exemplo), há um sistema (dinamizado por pais e professores, ou alunos mais velhos) que permite o empréstimo ou a doação, consoante a natureza do produto.
Ao longo do ano, os alunos têm de ler obrigatoriamente vários livros. Nenhum é comprado porque a escola empresta ou simplesmente são requisitados numa das bibliotecas da cidade, todas ligadas em rede para facilitar as devoluções, por exemplo. Aliás, todas as crianças vão à biblioteca, é um hábito muito valorizado.
A minha filha mais nova começou as suas aulas de ballet. Não nos pediram nada, nenhum fato nem sapatos especiais. Mas como é universalmente sabido, as meninas gostam do ballet porque é cor-de-rosa e porque as roupas também contam. Então, as mães vão passando os fatos e a minha filha recebeu hoje, naturalmente, o seu maillot cor-de-rosa com tutu, e uns sapatinhos, tudo já usado. Quando já não servir, é devolvido. E não estamos a falar de famílias carenciadas, pelo contrário. É assim há muito tempo.
O meu filho mais velho começará a ter, na próxima semana, aulas de guitarra. Se a coisa for levada mesmo a sério, poderemos alugar uma guitarra ou facilmente comprar uma em segunda mão.
Este sistema faz toda a diferença porque, desde que vivo na Holanda, terminou o pesadelo do início do ano. Tudo se passa com maior tranquilidade, não há a febre do "regresso às aulas do Continente" e os miúdos e os pais são muito menos pressionados. De facto, noto que há uma grande diferença se compararmos o nosso país e a Holanda (ou com outros países do Norte da Europa, onde tudo funciona de forma idêntica). Usar ou comprar o que quer que seja em segunda mão é uma atitude socialmente louvável, pelo que existem mil e uma opções. Não só se aprende desde cedo a poupar e a reutilizar, como a focar as atenções, sobretudo as dos mais pequenos, nas coisas realmente importantes.
Regressar à escola é muito bom, para os miúdos, mas também para as famílias."
30.09.2011 Helena Rico, 42 anos, Groningen, Holanda
 
 
 
Hoje, já começamos a assistir a esta forma de proceder, mas apenas por quem não pode fazer de outro modo, quem não tem finanças que possibilitem o novo. Porque, para os outros, parece mal que os filhos não levem tudo a brilhar, para a escola. Os pais, por cá, têm pena que mais o novo vista roupas usadas. Miúdos que estão a crescer, têm 10 pares de sapatos, 20 calças, 50 t-shirts, outras tantas sweats, etc.
 
Continuamos com vícios de ricos, um país à beira-mar-pantado do precipício.
publicado por fraufromatlantida às 17:38
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