Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

Carlos Martins - dadores de medula - E quando um desconhecido te oferece flores?!

 

Sempre tive pavor de agulhas. Lembro-me de ter ido, há uns anos, fazer análises sozinha, sem a minha mãe atrás, como era costume. Já era "crescida": terá sido algures entre os 14 e os 17 anos. Fiz a asneira de olhar, de rompante, mas olhar para a agulha espetada no meu braço. A partir desse momento, foi sempre a cair. A má disposição teve o seu pico uns metros depois da clínica: senti-me a apagar, as forças a irem-se, as coisas deixarem de ser o que são para ficar tudo branco, o zumbido nos ouvidos. Tive que me encostar a um muro e pôr a cabeça para baixo. Sentia as pessoas a passar; ninguém perguntou o que tinha ou se precisava de ajuda, mesmo sem se chegar perto (esta cena, com as devidas distâncias, faz-me lembrar a chinesinha que foi atropelada 2 vezes e a quem muita gente ignorou). O rebuçado que encontrei na mochila e o facto de ter baixado a cabeça ajudaram a que não desmaiasse.

 

Isto para dizer que tinha pavor de agulhas! Na teoria, sempre fui muito altruísta mas, na prática, sempre que me aproximava de um local para doar sangue e via aquelas agulhas com um lúmen pavoroso, mudava de ideias e voltava para trás... (chicken, eu sei...)

 

As coisas mudaram quando no meu primeiro emprego como bióloga foi votado, sem que a minha opinião pouco contasse, que passaria a tirar sangue para análise em humanos. Tenho a dizer que a coisa correu bem, nunca tive que picar ninguém 2 vezes, e perdi o aquele mal-estar pós-agulhas. As análises passaram a ser tranquilas e, finalmente, achei que já era capaz de ser dadora de sangue.

 

A primeira vez foi hilariante! A minha mãe foi comigo (só naquela e... ainda bem); ela, melhor que ninguém, sabe que estou sempre coradinha (ao contrário das outras pessoas, que usam blush para dar cor, eu uso base para disfarçar o rosado - ninguém está satisfeito). Quando, passado poucos minutos, me viu ficar sem cor, perguntou se estava vem. Quando, depois, viram, ela e a enfermeira, que estava a passar-me para o outro lado, toca a pôr o cadeirão a fazer o pino e, não sendo suficiente, a dar-me estaladinhas e a dizer para não fechar os olhos! Que vergonha!

 

Mas não desisti e, da segunda vez não foi tão mau. Lá continuei a dar o meu contributo.

 

Depois disto, achei que devia ser, também dadora de medula, mas nunca mais me deslocava a um Centro de Histocompatibilidade para tratar disso. Finalmente, há cerca 2 anos, disse que não passava desse dia, e fui ao Pulido Valente. Estou na lista de dadores e ainda não fui compatível com ninguém.

 

Toda esta história para dizer que ontem fiquei chocada ao quadrado com a história do Carlos Martins: angustiada pelo filho, revoltada pelo poder que não têm as pessoas mediáticas, com filhos em situações idênticas. Mas, entretanto, alguém disse que não podemos ver as coisas por essa perspectiva. Temos que pensar nisto como uma alavanca, que vai levar muita gente a registar-se como dadora e, deste modo, aumentar o "pool" das compatibilidades. E gostei mais desta perspectiva! Shame on me!

 

Seja como for, é diferente oferecermos flores porque sim, ou porque admiramos alguém.

 

publicado por fraufromatlantida às 09:49
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